segunda-feira, abril 24, 2006

A palavra arcaica

Meu objetivo, ao longo desse texto, é falar um pouco sobre algo que estive lendo sobre o motivo desse blogue - a palavra.
Para os gregos, a palavra era muito mais do que um simples signo convencionado que se referia a algo; a palavra tinha uma relação muito íntima com a coisa nomeada. É sabido que até por volta dos séculos VIII e VII a.C, os gregos eram povos ágrafos e a isso é atribuída a grandiosidade das nomeações e dos textos gregos. As reflexões feitas para a nomeação das coisas, dos Seres, são de uma grandiosidade belíssima e invejável. Para Sócrates, no Fedro, o alfabeto tem “caráter deletério para a Memória” (Memória que na mitologia grega é aquela que, fecundada por Zeus, gera e dá à luz as Palavras Cantadas, as Musas gregas. A Memória é aquela que confere ao aedo a “permissão” para o cantar das palavras), o que mostra uma clara posição dos gregos nesse período em relação ao surgimento do alfabeto. Tentando deixar mais claro: para o grego desse período arcaico (do grego arkhé – fundamento, princípio) o canto da Memória era mais que um simples recitar, que um simples cantar, era o “fazer-presente”, por meio do poder que a palavra tinha os fatos passados e os fatos futuros. Tão grande era esse poder que a palavra causava naqueles que ouviam uma sensação da experimentação real do Numinoso, do Sagrado - muitas vezes até, miraculosamente, curando doentes.
Na comunidade desse período anterior à criação do alfabeto, o aedo (poeta-cantor) é o grande transmissor, o grande divulgador da visão de mundo e da consciência social e/ou histórica que esse povo viria a ter; a palavra exerce, então, realmente seu papel, o de quebrar barreiras, o de instaurar uma realidade própria a ela e que, sem ela, não existiria (o que, de fato, ainda há nas poesias de hoje; esse salto imagético que há nelas).
Podemos, assim, ver que hoje, em relação a este período, a palavra perdeu um pouco – senão totalmente – seu caráter ontofânico; a arbitrariedade dos signos levou, de certa forma, embora a possibilidade dessa comunhão numinosa com a palavra em si, da relação essencial de palavra e coisa nomeada.

Para um melhor estudo disso que tentei dizer nesse texto – que confesso estar meio confuso, pedindo assim o perdão do caro leitor –, leiam o estudo de Jaa Torrano sobre a Teogonia, de Hesíodo; uma leitura muito gostosa, mas que exige grande dedicação e boa atenção!

Abraço