Carta ao estrangeiro
Enfim, por motivos de força maior, eis-me no lugar do Fabrício. Mas pelo menos, comigo vem o post da semana. Escrevi esse texto em 03/11/2004, portanto, alguns dados podem estar defasados. As próclises em início de frase são inteiramente erradas, mas as gosto. O leitor amigo sincero que não repare, e o inimigo, que não comente. Ao texto:
Estranja,
Venho por meio desta falar a respeito de minha pátria. Patriíssima, diria eu, por ser a melhor do mundo. Porque assim é? Calma, argumentarei.
Quero deixar de lado os argumentos vetustos e portanto verídicos de que somos um país com extensão continental, possuímos oito mil quilômetros de costa litorânea, temos paisagem belíssima, aqui se plantando tudo dá, não há calamidades como terremotos, vulcões em atividade ou furacões, nem inverno rigoroso ou verão (muito) insuportável. Deixo-os de lado pela vulgariedade e obviedade que contêm para falar sobre o que verdadeiramente faz o Brasil ser Brasil: o brasileiro.
Mas ah! Povo maravilhoso! Sempre tratamos bem o estrangeiro, e, tão bem, que dizem as más linguas ser submissão. Oras veja! Somos um povo tão bom que tudo o que nos propomos a fazer, fazemos o melhor. Exemplo, gostamos muito de carne e zás!, somos os maiores exportadores de frango e carne bovina do mundo. Em reciclagem de alumínio, em breve passaremos o Japão, visto o vulto de nossas exportações nessa área. Agricultura então é covardia mencionar, prova de nossa persistência e amor pela terra.
E nosso esporte favorito? Futebol é o único esporte pelo qual nutrimos interese, e, não à toa, somos o topo. Pode-se reclamar que nossos clubes estão sem craques, mas o motivo é simples: somos uma hegemonia interessada na globalização de seus jogadores, segredo de o futebol ser o esporte número um do mundo e do insucesso do basquete norte-americano como paixão global.
Cá na terra é muito comum o catolicismo não praticante. Funciona da seguinte maneira: o sujeito recebe uma agüinha na cabeça tempos depois de nascido, faz o que chamamos de "comunhão" durante certo tempo, para se encontrar com os amigos, decorar umas rezas, vez ou outra ouvir histórias absurdas chamadas de milagres, e, finalmente, é só ir à Igreja em casamento/ funeral de amigos e parentes, além do próprio. Viu? Sem preocupações com rituais ou indagações metafísicas, coisa fútil em matéria de religião, o catolicismo não praticante à brasileira faz com que seu praticante tenha tanta fé em seus preceitos e um senso espiritual tão apurado, que ele vez ou outra vai a uma igreja evangélica, a um centro de macumba e, na volta à casa, recebe uma carta psicografada. E não se espante: nos orgulhamos de sermos um povo criativo e liberal, sem preconceitos de credo, classe ou cor. Eis o país com o maior número de católicos do mundo.
A nossa política, e a nossa política! Acha coincidência sermos os primeiros a utilizar urna eletrônica? Apesar de sermos um país ainda a utilizar as fraldas em questão de democracia (houve ditadura, sincero comentador que sou não a nego), como somos fortes! E pasme: sabemos não só apurar votos como realizá-los de maneira consciente. Exemplos abundam: acabamos de eleger um representante de esquerda com E maiúsculo e temos um vasto histórico de sábios eleitos que tão bem nos representaram e representam. O estrangeiro há de estranhar, afinal, como sujeitos que superfaturam obras, desviam dinheiro público, formam quadrilhas, criam leis eleitoreiras e usam o cargo público como cabide de emprego podem ser considerados uma sábia escolha? Explico: num país tao belo, cheio de esporte, religião e gente bonita (afinal, a modelo que mais ganha no mundo só podia ser nossa), por que nos preocuparíamos com nossa administração pública? É sabido que o brasileiro é sujeito de bom coração, sendo até chamado de "homem cordial" no admirável Raizes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, o que nos faz pensar que qualquer eleito tem boas inteções no poder. Além do mais, como somos um povo pouco interessado nos bens materiais, já que são coisas desconhecidas por aqui e buscamos o bem espiritual, então, nada mais justo que eleger alguém interessado em dinheiro e poder para dar a esse alguém a chance de obtê-los, ou (como geralmente acontece) ampliá-los, reforçando a nossa boa fama e o porquê dessa escolha tão sábia. Me perguntará você: e funciona? Claro. A nossa falta de preocupação política demonstra também que por aqui tudo vai bem, visto não necessário comentar nossa situação.
Enfim, caro estrangeiro, essa é minha pátria. Por tudo que demonstrei, já se vê porque aqui é comum se dizer que política, religião e futebol não se discutem. Veja a que ponto evoluímos sem se discutir, e eis o nosso segredo. Me deculpe se enalteci meu país por demais, o orgulho me move a boca. E parece inacreditável, mas apesar de tantas qualidades, o brasileiro não sofre da arrogância tola e vã chamada de patriotismo, o que me deixa mais impressionado. Espero que goste dessa minha pobre descrição e prepare as malas, o esperamos de braços abertos.
Abraço, do quem sabe seu futuro amigo e muito seu negro,
Shamir
Estranja,
Venho por meio desta falar a respeito de minha pátria. Patriíssima, diria eu, por ser a melhor do mundo. Porque assim é? Calma, argumentarei.
Quero deixar de lado os argumentos vetustos e portanto verídicos de que somos um país com extensão continental, possuímos oito mil quilômetros de costa litorânea, temos paisagem belíssima, aqui se plantando tudo dá, não há calamidades como terremotos, vulcões em atividade ou furacões, nem inverno rigoroso ou verão (muito) insuportável. Deixo-os de lado pela vulgariedade e obviedade que contêm para falar sobre o que verdadeiramente faz o Brasil ser Brasil: o brasileiro.
Mas ah! Povo maravilhoso! Sempre tratamos bem o estrangeiro, e, tão bem, que dizem as más linguas ser submissão. Oras veja! Somos um povo tão bom que tudo o que nos propomos a fazer, fazemos o melhor. Exemplo, gostamos muito de carne e zás!, somos os maiores exportadores de frango e carne bovina do mundo. Em reciclagem de alumínio, em breve passaremos o Japão, visto o vulto de nossas exportações nessa área. Agricultura então é covardia mencionar, prova de nossa persistência e amor pela terra.
E nosso esporte favorito? Futebol é o único esporte pelo qual nutrimos interese, e, não à toa, somos o topo. Pode-se reclamar que nossos clubes estão sem craques, mas o motivo é simples: somos uma hegemonia interessada na globalização de seus jogadores, segredo de o futebol ser o esporte número um do mundo e do insucesso do basquete norte-americano como paixão global.
Cá na terra é muito comum o catolicismo não praticante. Funciona da seguinte maneira: o sujeito recebe uma agüinha na cabeça tempos depois de nascido, faz o que chamamos de "comunhão" durante certo tempo, para se encontrar com os amigos, decorar umas rezas, vez ou outra ouvir histórias absurdas chamadas de milagres, e, finalmente, é só ir à Igreja em casamento/ funeral de amigos e parentes, além do próprio. Viu? Sem preocupações com rituais ou indagações metafísicas, coisa fútil em matéria de religião, o catolicismo não praticante à brasileira faz com que seu praticante tenha tanta fé em seus preceitos e um senso espiritual tão apurado, que ele vez ou outra vai a uma igreja evangélica, a um centro de macumba e, na volta à casa, recebe uma carta psicografada. E não se espante: nos orgulhamos de sermos um povo criativo e liberal, sem preconceitos de credo, classe ou cor. Eis o país com o maior número de católicos do mundo.
A nossa política, e a nossa política! Acha coincidência sermos os primeiros a utilizar urna eletrônica? Apesar de sermos um país ainda a utilizar as fraldas em questão de democracia (houve ditadura, sincero comentador que sou não a nego), como somos fortes! E pasme: sabemos não só apurar votos como realizá-los de maneira consciente. Exemplos abundam: acabamos de eleger um representante de esquerda com E maiúsculo e temos um vasto histórico de sábios eleitos que tão bem nos representaram e representam. O estrangeiro há de estranhar, afinal, como sujeitos que superfaturam obras, desviam dinheiro público, formam quadrilhas, criam leis eleitoreiras e usam o cargo público como cabide de emprego podem ser considerados uma sábia escolha? Explico: num país tao belo, cheio de esporte, religião e gente bonita (afinal, a modelo que mais ganha no mundo só podia ser nossa), por que nos preocuparíamos com nossa administração pública? É sabido que o brasileiro é sujeito de bom coração, sendo até chamado de "homem cordial" no admirável Raizes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, o que nos faz pensar que qualquer eleito tem boas inteções no poder. Além do mais, como somos um povo pouco interessado nos bens materiais, já que são coisas desconhecidas por aqui e buscamos o bem espiritual, então, nada mais justo que eleger alguém interessado em dinheiro e poder para dar a esse alguém a chance de obtê-los, ou (como geralmente acontece) ampliá-los, reforçando a nossa boa fama e o porquê dessa escolha tão sábia. Me perguntará você: e funciona? Claro. A nossa falta de preocupação política demonstra também que por aqui tudo vai bem, visto não necessário comentar nossa situação.
Enfim, caro estrangeiro, essa é minha pátria. Por tudo que demonstrei, já se vê porque aqui é comum se dizer que política, religião e futebol não se discutem. Veja a que ponto evoluímos sem se discutir, e eis o nosso segredo. Me deculpe se enalteci meu país por demais, o orgulho me move a boca. E parece inacreditável, mas apesar de tantas qualidades, o brasileiro não sofre da arrogância tola e vã chamada de patriotismo, o que me deixa mais impressionado. Espero que goste dessa minha pobre descrição e prepare as malas, o esperamos de braços abertos.
Abraço, do quem sabe seu futuro amigo e muito seu negro,
Shamir

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