segunda-feira, abril 17, 2006

V de valeu?

A princípio, desculpe o trocadilho infame. Quando a pena foi solta ele me veio, então o deixo. Mas bora lá: o filme baseado em V de Vingança é bom, sim. Merece as horas gastas com o cinema e convido o nobre leitor a ir vê-lo. No quesito blockbuster, creio que talvez seja um dos melhores filmes nesse ano. Mas não pense em comparar com a obra original, que é irretocável, uma das melhores coisas que já li.
Alan Moore (autor da HQ) comenta à revista Trip (que sairá em maio) o seguinte:
"Eu tenho esse incômodo com adaptações de cinema. Quando você tem um público que cresce ao redor do cinema, há esse problema dos jovens que absorvem arte apenas se ela vier por uma tela. Isso encoraja à preguiça. Muitas das pessoas que vão ao cinema não precisam se preocupar em ler o livro, porque, obviamente, o livro é muito mais difícil, exige muito mais experiências do que apenas ficar sentado no cinema com uma tigela de pipoca no colo por 90 minutos... É por isso que me incomoda tanto essa coisa das adaptações".
E certo está o rapaz. Li a crítica da reuters que falava algo como "terroristas viram super-heróis", uma crítica burra e absurda. O problema dessa crítica (assim como das demais críticas rasas) é não perceber que a temática do filme, além de "terroristas viram super-heróis", é também "terroristas assumem o governo". A fala de Moore explica esse tipo de miopia: como exigir senso crítico e inteligência de alguém que simplesmente consome arte junto com pipoca, ao invés de apreciá-la?
Isso muito me lembra o que o glorioso Arnold Hauser escreveu:
"Essa massa de frequentadores de cinema dificilmente pode ser qualificada de 'público', visto que só um grupo mais ou menos constante de patronos pode ser descrito como tal, um grupo que, em certa medida, é capaz de garantir a continuidade de produção num certo campo de arte. As aglomerações com características de público baseiam-se na compreensão mútua; mesmo que as opiniões estejam divididas, as divergências ocorrem num só e mesmo plano. No tocante às massas que se sentam juntas nos cinemas, porém, que não passaram por qualquer espécie de formação intelectual comum anterior, seria fútil procurar tal plataforma de compreensão mútua. Se um filme lhes desagrada, há uma probabilidade tão pequena de concordância entre eles quanto às razões de sua rejeição, que se deve até presumir que a aprovação geral pode basear-se num mal entendido".
E esse é justamente o problema: a massa não procura uma formação intelectual anterior, assim como os filmes não estimulam essa busca. Vão todos crescendo com essa preguiça intelectual, elegendo terroristas como governantes, e quando aparece alguém que se utiliza de um ato extremo para sanar um mal anterior, afirmam que terroristas viram super-heróis.
Em tempo: veja o filme, compre a HQ e leia a entrevista de Moore.