segunda-feira, março 27, 2006

"Tentando criar um nicho"

Conversando ontem com Shamir sobre o que ia postar hoje, ele me sugeriu que eu falsse sobre o "epíteto" do blogue. A frase surgiu de uma de nossas conversas no bar do Zé - o ponto de encontro da intelectualidade boêmia e contemporânea - sobre como explicar a função, ou intenção, do Las Paroles.
Antes, na época do Modernismo, por exemplo, tínhamos uma produção literária muito interessante que deu origem a uma série de livros: as Correspondências. Grandes nomes da nossa literatura correspondiam-se entre si, trocando idéias sobre os mais diversos assuntos, bem como suas obras em andamento. Hoje, utlizando dos meios tecnológicos a que temos acesso, e com esse grande "advento" dos blogues, pensamos: por que não criar um grupo de discussão?; um lugar onde pessoas de mesmos interesses e impressões possam expor suas idéias? Um nicho!
Nossa intenção não é, de maneira alguma, mostrar que escrevemos muito bem e pedir a todos que nos reverenciem como nomes gigantescos da literatura - e definitivamente não o fazemos nem o somos -, mas sim, criar um novo nicho, de discussões que permeiem as artes, a política, o cotidiano - a vida como um todo.
Nossas impressões são nossas impressões, por mais idiota que isso possa parecer. Porém, criando esse nicho, podemos trocar impressões e muitas vezes, confrontando-as, retocá-las, deixando mais claras, mais bonitas, mais reais.
Pequeno texto esta semana, ainda assim, a espera de grandes comentários!
Um abraço.

domingo, março 19, 2006

Violência

Cá estou eu, Jaiminho, retornando ao Las Paroles. Este texto que segue foi escrito em 1999, para um trabalho da escola, mas eu gostei do que escrevi porque ficou meio jornalístico e resolvi estrear minhas postagens semanais com esse. Abraços!
Avançam cada vez mais os índices de violência nas periferias das grandes cidades. Segundo dados do Jornal “Folha de São Paulo”, classificando os 100 municípios mais violentos do Brasil, em primeiro lugar está Diadema, em segundo Floresta (PE), em terceiro está a cidade de Serra (ES), em quarto Belém de São Francisco (PE), em quinto Embu (SP)... Das 100 cidades brasileiras mais violentas, 74 estão em três Estados: Pernambuco (28), São Paulo (26) e Rio de Janeiro (20). Quais são os motivos que fazem com que essa violência nunca pare de aumentar? Será que as pessoas já nascem más? Ou será que são condicionadas a lavagem cerebral diária mostrada na televisão, imposta pela classe social mais privilegiada economicamente?
A globalização da miséria, as profundas e inesgotáveis diferenças sociais, os enormes e infindáveis índices de desemprego, uma parcela da população passando fome, a falta de perspectiva de vida que existe entre as classes menos abastadas, a falta de saneamento básico (fazendo com que milhares de pessoas convivam com esgotos a céu aberto, com que as crianças peguem doenças, etc.), estas são as causas da violência, pois para toda ação existe uma reação contrária de igual ou, como nos nossos dias, maior. A violência só gera violência.
As pessoas não nascem más, as suas condições é que as tornam como são. Será que se milhares e milhares de jovens tivessem condições de uma boa educação, alimentação, saúde e lazer estariam nesta onda de violência em que estão inseridos? Se a mídia não publicasse que “quem não tem nada é”, estimulando inconscientemente (?) a violência, que quem não tem carro ou tênis importado é um zé-ninguém, um lixo, talvez hoje o problema não fosse tão sério.
Hoje, infelizmente, se comete algum ato de violência por motivos idiotas. Nada justifica a violência, é claro, mas motivos absurdos estão acabando com famílias inteiras. E tem mais: violência não é só a violência agressão. Todo tipo de preconceito é violência. Preconceito é um tipo de violência social, um tipo de violência que às vezes passa despercebido, fazemos sem notar. O que faz com que os preconceitos aumente são as enormes diferenças entre as classes sociais, o que faz que, consequentemente, aumente a violência. Essa cultura do consumo desenfreado faz com que cada vez mais nosso povo se mate entre si. Enfim, enquanto houver a exploração do homem em cima dos próprios homens, enquanto houver acumulação de capital nas mãos de poucos, haverá a violência.

quinta-feira, março 16, 2006

Rapidinha da semana...

As pessoas, realmente, têm praticado constantemente o não importar-se. Quem pega metrô em SP, como eu, sabe do que digo. Ao chegar ali na estação Luz, na passagem das catracas do Trem para o Metrô, começa a divisão do gado. Todos são colocados - ou se espremem - num mesmo lugar, até para mostrar que Newton estava errado quando disse que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço, e começam a passar pelas catracas, lembrando claramente a divisão do gado, só faltando sermos marcados a ferro em brasa, no fim.
É nessa hora que vejo o não importar-se; o ego esmagando o alter; todos querem dar o seu jeitinho brasileiro, empurram pessoas de mais idade - que têm uma portinha especial, é verdade... mas muitas não o sabem -, não ligam pra crianças, pra nada; bufam e continuam andando.

E isso repete-se todo dia.

É incrível como temos nos distanciado, uns dos outros, a cada dia que passa.

Abraço

terça-feira, março 14, 2006

Carta ao estrangeiro

Enfim, por motivos de força maior, eis-me no lugar do Fabrício. Mas pelo menos, comigo vem o post da semana. Escrevi esse texto em 03/11/2004, portanto, alguns dados podem estar defasados. As próclises em início de frase são inteiramente erradas, mas as gosto. O leitor amigo sincero que não repare, e o inimigo, que não comente. Ao texto:


Estranja,
Venho por meio desta falar a respeito de minha pátria. Patriíssima, diria eu, por ser a melhor do mundo. Porque assim é? Calma, argumentarei.
Quero deixar de lado os argumentos vetustos e portanto verídicos de que somos um país com extensão continental, possuímos oito mil quilômetros de costa litorânea, temos paisagem belíssima, aqui se plantando tudo dá, não há calamidades como terremotos, vulcões em atividade ou furacões, nem inverno rigoroso ou verão (muito) insuportável. Deixo-os de lado pela vulgariedade e obviedade que contêm para falar sobre o que verdadeiramente faz o Brasil ser Brasil: o brasileiro.
Mas ah! Povo maravilhoso! Sempre tratamos bem o estrangeiro, e, tão bem, que dizem as más linguas ser submissão. Oras veja! Somos um povo tão bom que tudo o que nos propomos a fazer, fazemos o melhor. Exemplo, gostamos muito de carne e zás!, somos os maiores exportadores de frango e carne bovina do mundo. Em reciclagem de alumínio, em breve passaremos o Japão, visto o vulto de nossas exportações nessa área. Agricultura então é covardia mencionar, prova de nossa persistência e amor pela terra.
E nosso esporte favorito? Futebol é o único esporte pelo qual nutrimos interese, e, não à toa, somos o topo. Pode-se reclamar que nossos clubes estão sem craques, mas o motivo é simples: somos uma hegemonia interessada na globalização de seus jogadores, segredo de o futebol ser o esporte número um do mundo e do insucesso do basquete norte-americano como paixão global.
Cá na terra é muito comum o catolicismo não praticante. Funciona da seguinte maneira: o sujeito recebe uma agüinha na cabeça tempos depois de nascido, faz o que chamamos de "comunhão" durante certo tempo, para se encontrar com os amigos, decorar umas rezas, vez ou outra ouvir histórias absurdas chamadas de milagres, e, finalmente, é só ir à Igreja em casamento/ funeral de amigos e parentes, além do próprio. Viu? Sem preocupações com rituais ou indagações metafísicas, coisa fútil em matéria de religião, o catolicismo não praticante à brasileira faz com que seu praticante tenha tanta fé em seus preceitos e um senso espiritual tão apurado, que ele vez ou outra vai a uma igreja evangélica, a um centro de macumba e, na volta à casa, recebe uma carta psicografada. E não se espante: nos orgulhamos de sermos um povo criativo e liberal, sem preconceitos de credo, classe ou cor. Eis o país com o maior número de católicos do mundo.
A nossa política, e a nossa política! Acha coincidência sermos os primeiros a utilizar urna eletrônica? Apesar de sermos um país ainda a utilizar as fraldas em questão de democracia (houve ditadura, sincero comentador que sou não a nego), como somos fortes! E pasme: sabemos não só apurar votos como realizá-los de maneira consciente. Exemplos abundam: acabamos de eleger um representante de esquerda com E maiúsculo e temos um vasto histórico de sábios eleitos que tão bem nos representaram e representam. O estrangeiro há de estranhar, afinal, como sujeitos que superfaturam obras, desviam dinheiro público, formam quadrilhas, criam leis eleitoreiras e usam o cargo público como cabide de emprego podem ser considerados uma sábia escolha? Explico: num país tao belo, cheio de esporte, religião e gente bonita (afinal, a modelo que mais ganha no mundo só podia ser nossa), por que nos preocuparíamos com nossa administração pública? É sabido que o brasileiro é sujeito de bom coração, sendo até chamado de "homem cordial" no admirável Raizes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, o que nos faz pensar que qualquer eleito tem boas inteções no poder. Além do mais, como somos um povo pouco interessado nos bens materiais, já que são coisas desconhecidas por aqui e buscamos o bem espiritual, então, nada mais justo que eleger alguém interessado em dinheiro e poder para dar a esse alguém a chance de obtê-los, ou (como geralmente acontece) ampliá-los, reforçando a nossa boa fama e o porquê dessa escolha tão sábia. Me perguntará você: e funciona? Claro. A nossa falta de preocupação política demonstra também que por aqui tudo vai bem, visto não necessário comentar nossa situação.
Enfim, caro estrangeiro, essa é minha pátria. Por tudo que demonstrei, já se vê porque aqui é comum se dizer que política, religião e futebol não se discutem. Veja a que ponto evoluímos sem se discutir, e eis o nosso segredo. Me deculpe se enalteci meu país por demais, o orgulho me move a boca. E parece inacreditável, mas apesar de tantas qualidades, o brasileiro não sofre da arrogância tola e vã chamada de patriotismo, o que me deixa mais impressionado. Espero que goste dessa minha pobre descrição e prepare as malas, o esperamos de braços abertos.
Abraço, do quem sabe seu futuro amigo e muito seu negro,
Shamir

segunda-feira, março 06, 2006

Escritos Semanais - I

A mim foi dada a honra de iniciar as “postagens semanais” – ou seja lá como chamá-las-emos – do Las Paroles. Semanalmente, haverá um “post da semana”, escrito por mim, Fabrício ou Shamir, sempre em rodízio.
Começarei falando de um tema que, hoje, é o meu preferido. Camus tem seu Absurdo; Kant sua Razão Pura; Sartre sua Existência; eu tenho minha Solidão. Desde muito tempo, essa temática desperta em mim um certo incômodo, uma certa vontade da busca por razões (ou desrazões) da sua existência, de como ela age em cada Ser.
Muitos acreditam que a Solidão só existe quando um determinado Ser não tem nenhum outro companheiro de determinada espécie ao seu redor, como, por exemplo, uma pessoa no meio de um deserto. Mas será mesmo que é só assim? Será que só deste modo podemos afirmar com todo o empirismo que a pessoa é solitária? Será que a definição de solidão que tem perpassado pelos tempos ainda é tão segura, depois de tantos filósofos, artistas e literatos terem debruçado sobre ela?
Penso que haja solidões, no plural mesmo. Há aquela senhora no supermercado que compra o pão e olha absorta para o nada; as pessoas esbarram nela, ela vira na esperança de um pedido de desculpas mas a pessoa simplesmente passa; o homem que pede dinheiro na rua, sentado na calçada, e quase nunca é ouvido. Pensem: por mais que este homem peça dinheiro acompanhado de uma outra pessoa, não será uma sensação de abandono existencial falar e simplesmente nem mesmo olharem pra ele? Há o poeta, recluso no seu Eu, no seu mundinho – este é aquele que busca a Solidão para dela fazer um mundo totalmente novo, muitas vezes avesso à Solidão a qual ele busca pra seu intelecto acordar. O executivo rico, rodeado de mulheres, “amigos” – uso as aspas aqui pois, neste caso, normalmente quando vai-se o dinheiro, vão-se os “amigos” – que, à noite em sua cama, sente o aperto gélido e angustiante da sua Solidão.
Hoje, as barreiras de comunhão com os seres tornaram-se mais altas e mais intransponíveis. Há inúmeras maneiras de amenizar o sentimento da Solidão, mas creio que ainda exista muito para aprendermos e entendermos em relação a isso.

Este foi um pequeno texto que lá na frente, posso vir a negar e reescrever ou confirmar e aumentar, porém, essas são algumas de minhas atuais impressões desse mundo Solitário.

Abraços.