O ego da miss
A eleição da Miss Universo sempre me deixa um gosto amargo na boca, um indício de que nossa sociedade não anda lá muito bem das pernas. E nesse ano não foi diferente.
Fico pensando em como é a cabeça daquelas garotas maravilhosas, deslumbrantes, sinônimos de beleza, e que, por isso mesmo, dedicam uma vida inteira a concursos de belezas. O que, além do dinheiro, as faz disputar tais concursos? A arrogância? Será que possuem um ego mal formado e tentam provar algo a alguém? Tentam demonstrar àquele namoradinho sacana que elas são superiores? Tentam provar à turma da escola que a arrogância delas tinha razão? Tentam provar que conseguem sair-se bem com a beleza?
Infelizmente não sei e creio que nunca saberei; mulheres desse tipo não podem ser mulheres, têm de ser objetos, máquinas distantes e perfeitas, sonhos de consumo. No dia em que se conhece uma delas, a miss deixa de existir, abrindo espaço para uma mulher. E aí o bicho pega. O que essa mulher vai dizer para ti? Quando ela disser que está com ciúmes, que está triste, que está de tpm, o tesão pela miss vai pelo ralo e o que sobra é uma mulher para se consolar. E aí que a miss deve sofrer no casamento, pois o marmanjo que se casou com ela casou-se com a máquina, e não com a mulher.
Esse é o lado da miss, vivendo de e na falsidade. Mas há mais coisas graves, como o fato da nossa sociedade imaginar que beleza é passível de julgamento. Óbvio que não, tanto que a miss preferida deste escriba (a da Polônia) nem chegou entre as dez primeiras. A partir do momento em que há a crença no julgamento da beleza, cria-se, então, um padrão de beleza. E aí fica aquela história de perseguir o tal padrão. Dependendo da mídia e de fatores sociais locais, essa perseguição enlouquece as garotinhas bonitinhas. Por exemplo, desde que chegou, na Índia, um método para tornar a pele clara, é comum que o sonho feminino seja o de participar deste método, mesmo que depois não se possa mais tomar sol ou tenha de se viver sempre com um creme por perto.
Concursos de beleza são cruéis, mas a culpa não é única e exclusivamente deles. Tais concursos demonstram como nossa sociedade não consegue formar o ego de alguém, e como necessitamos sempre criar e julgar um padrão. Mas enfim, não me importo se uma miss com o ego mal formado resolva telefonar para mim.

<< Home