O demônio chegou-se para mim e disse "Iblis, o Shaitan. Prazer". Ao que repliquei que "Mas... o demônio não era Lúcifer?", "Pois é, sabe aquilo de Alá como o único deus e Maomé como seu profeta? Tudo verdade. O demônio é muçulmano".
Temi: pior que descobrir que o demônio existe, é descobrir que ele é d’outra religião. Tal fato quer dizer que, simplesmente por ter uma fé divergente, você viverá a danação eterna. "Mas oras, óbvio. Esse é o problema da religião: se qualquer uma estiver realmente certa, todas as outras estarão realmente erradas. E pronto: a maioria da população mundial está condenada à danação eterna, seja por condições espaço-temporais, seja por condições sócio-culturais. Aquele que verdadeiramente crê na salvação, não acredita nem em religião, nem em Deus, que é faceta desta". "Fala propícia, vinda de ti". "Nada, sempre achei Alá sacana. Por que não aparecer pessoalmente a todos e dizer: 'ó rapaziada, o Maoma aí é meu truta e tá certo'? Por que Ele não explicita diretamente o que vocês devem fazer ou não, como fez com Adão e Eva? Para que testar a fé?". "Porra".
"Então, Alá é sacana. Muito que venho matutando nesses preceitos e cheguei à seguinte conclusão: Ele assim o é porque assim o foram com Ele. Veja você: Alá sempre existiu; mas, como se sabe que Ele sempre existiu, se foi Ele que criou o tempo? Como é possível medir o não-tempo? E se Alá foi criado por um outro Alá, Alá de Alá, criador do não-tempo ao qual Alá pertence? Imagine o medo Dele, existindo, mas sem saber se sempre existiu. E então, Ele cria o mundo, o tempo, o vir-a-ser. E quando cria, gera, toma um ato. E quando toma um ato, movimenta-se, faz uma ação, participando, assim, do vir-a-ser. E deixa de ser eterno, o estático: assim como participa do vir-a-ser, participa do vir-a-não-ser. Eis aí: Alá pode morrer”. “Caralho”.
“Aí, o piormente: o que acontece com Alá quando Ele morre? Vocês não sabem, mas eu conto: Alá já acreditou nas muitas religiões, pensando nisso de vida após a morte. Foi judeu, pensando que viria um messias para O salvar; já foi ateu, mas, como deve imaginar, ser ateu, para Ele, é negar a própria divindade. Ultimamente anda agnóstico, mas sabe-se lá quando vem a próxima mudança”. “Deus é religioso, a única religião é a não religião... o que mais?”. “Gabriel... o seu Gabriel é jainista. Para mim, essa é a religião mais louca que um anjo pode ter”. “E Cristo?”. “Isa? Cristão. Só que agora ele é filho do Alá do Alá”. “Diabos...”. “Não. Iblis, muçulmano. Prazer”.