sábado, setembro 16, 2006

Olhares

Ele no ponto. Ela no ônibus. Os olhares, até então perdidos, se encontram. E sem saberem como, ali ficam...parados... dois olhares... apenas se olhando. O dela descansado, sem compromisso. O dele preocupado, à procura. Mas ao se cruzarem, tudo muda... o dela torna-se atento e o dele terno, suave. Um tipo de olhar diferente é o deles. Um olhar que só procura o outro olhar e que não vê mais nada; rosto, corpo, roupas... nada disso importa, pois o que fica, realmente, é o olhar. Um olhar maduro o dele, seco, cansado. Já o dela é jovem, tenro, sonhador. Um mundo a descobrir se revela nesse olhar, que pode, e deve, ter uma dona ainda mais encantadora. Um rosto angelical, com lábios macios e bochechas coradas, quem sabe... mas não, nunca saberei porque o olhar dele só procurou e achou o olhar dela, mais nada... e isso é o bastante para encher esse peito amargo: só esse olhar... É uma pena, mas aquele olhar se foi... durou o tempo bastante para se tornar inesquecível. Silencioso e simples, quase ningúem que estava em volta percebeu o que havia acontecido naqueles breves instantes, como aquilo era importante para dois seres, ou pelo menos para esse um. Só esse olhar, que por poucos segundos aconteceu, que poucos segundos durou, teve a capacidade de aliviar esse peito, esse corpo cansado, esse olhar duro, dando ao seu detentor um semblante mais plácido, sereno, além dos outros que se vêem ao seu lado. Quanto tempo durou? Menos de 10 segundos. Por quanto tempo ficará guardado? Por, pelo menos, uma vida. Como eu sei disso tudo? Simples: eu sou o coração desse olhar...

quarta-feira, setembro 06, 2006

Os atrasos, o conto

Senhores, as desculpas pelo(s) atraso(s), que este que vos fala sempre demora demais para escrever algo, e sempre acha que seus escritos são de exigir correção. Então, venho por meio desta para tirar um pouco do atraso e apresentar um projeto de conto. Abraço!


“Participa da vida!” – ela me disse.
“Por que, se vou morrer?”
“Então, participa da morte!”

“Também não, que é coisa insossa. Em termos de morte, avançamos pouco desde o Osíris egípcio e a mônada jaina...”
“Infantil!”
“Idealista!”
E, numa dessas, ela ficou grávida, e eu, casado. Não que seja ruim a idéia da relação monogâmica, estável, sancionada pela lei e igreja, mas é que a coisa não se encaixa comigo. Aceitei-a, afinal, de sacanagem já basta o mistério da existência. A barriga dela foi crescendo, assim como as contas e as brigas. Aumentei minha carga horária e tristeza, mas poupo o leitor da descrição desta, pois ele próprio tem a sua para aturar. O fato é que o guri nasceu, saudável, sem defeitos: mais um animalzinho a se debater pela vida, para depois morrer.
“E você, que se debate pela morte, e nem vive?”
“Por que, se vou morrer?”
E se calava, furiosa. “Infantil!”, devia estar pensando. Mas dizia, para se acalmar: “Sempre assim, esse diálogo repetitivo, não levando a lugar algum...”
“Pois a vida me sabe a isso...”


Já falei do guri? Se dedicava a ele, ela, que encontrou na criança os meus carinhos perdidos; cresceu bem, inteligente, curioso. Sem muita fantasia, pois eu fazia questão de as quebrar todas. Já sabia ele que cegonha não trazia filhos, nem coelhos traziam ovos. O problema foi o catecismo, as dúvidas do guri sobre Deus. Por mim, ele não se batizava, nem comungava com Jesus; mas ela, sempre, me fez aceitar o fato. E as dúvidas crescendo, assim como a criança. Neguei tudo, do princípio ao fim, o alfa e ômega divino. E, à medida que ela me olhava de revés, à medida que a mãe pedia para o filho não me escutar, o prazer pelo proibido aumentava, tanto em mim quanto nele. E lá fiquei eu, a recitar meus versos satânicos.
Acho que aí foi o fim.


O fim, porque meses depois nos separamos. Não que a discussão sobre a existência divina tenha sido a causa, mas é reflexo dela. O leitor que pense o que nos separou, que sou também leitor da situação. Falando em leitura, recebi uma carta, dias atrás (ela sempre gostou das epístolas):
“Participa da vida! Me escreve!”
Acabo de inserir, em uma folha em branco, “Por que, se vou morrer?”. Deve bastar.