Senhores, as desculpas pelo(s) atraso(s), que este que vos fala sempre demora demais para escrever algo, e sempre acha que seus escritos são de exigir correção. Então, venho por meio desta para tirar um pouco do atraso e apresentar um projeto de conto. Abraço!
“Participa da vida!” – ela me disse.
“Por que, se vou morrer?”
“Então, participa da morte!”
“Também não, que é coisa insossa. Em termos de morte, avançamos pouco desde o Osíris egípcio e a mônada jaina...”
“Infantil!”
“Idealista!”
E, numa dessas, ela ficou grávida, e eu, casado. Não que seja ruim a idéia da relação monogâmica, estável, sancionada pela lei e igreja, mas é que a coisa não se encaixa comigo. Aceitei-a, afinal, de sacanagem já basta o mistério da existência. A barriga dela foi crescendo, assim como as contas e as brigas. Aumentei minha carga horária e tristeza, mas poupo o leitor da descrição desta, pois ele próprio tem a sua para aturar. O fato é que o guri nasceu, saudável, sem defeitos: mais um animalzinho a se debater pela vida, para depois morrer.
“E você, que se debate pela morte, e nem vive?”
“Por que, se vou morrer?”
E se calava, furiosa. “Infantil!”, devia estar pensando. Mas dizia, para se acalmar: “Sempre assim, esse diálogo repetitivo, não levando a lugar algum...”
“Pois a vida me sabe a isso...”
Já falei do guri? Se dedicava a ele, ela, que encontrou na criança os meus carinhos perdidos; cresceu bem, inteligente, curioso. Sem muita fantasia, pois eu fazia questão de as quebrar todas. Já sabia ele que cegonha não trazia filhos, nem coelhos traziam ovos. O problema foi o catecismo, as dúvidas do guri sobre Deus. Por mim, ele não se batizava, nem comungava com Jesus; mas ela, sempre, me fez aceitar o fato. E as dúvidas crescendo, assim como a criança. Neguei tudo, do princípio ao fim, o alfa e ômega divino. E, à medida que ela me olhava de revés, à medida que a mãe pedia para o filho não me escutar, o prazer pelo proibido aumentava, tanto em mim quanto nele. E lá fiquei eu, a recitar meus versos satânicos.
Acho que aí foi o fim.
O fim, porque meses depois nos separamos. Não que a discussão sobre a existência divina tenha sido a causa, mas é reflexo dela. O leitor que pense o que nos separou, que sou também leitor da situação. Falando em leitura, recebi uma carta, dias atrás (ela sempre gostou das epístolas):
“Participa da vida! Me escreve!”
Acabo de inserir, em uma folha em branco, “Por que, se vou morrer?”. Deve bastar.